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sábado, março 31, 2007

Por enquanto

John Hummel - arquivo Google

Cláudia Éfe

Você é o desconhecido
eu me pretendo
pular páginas
mergulhar em vírgulas
fumo em continuidade

e outras reticências

afinar o limite
até provocar o bastante
para decompor-se
melodicamente
no quanto

quinta-feira, março 29, 2007

CIBERDEPENDENTE


Célia Demézio

No lugar dos óculos
Ponha o escuro.
No lugar do azul,
Acenda a luz.
No lugar da cama,
Ponha a mesa.
No lugar do inferno,
Ponha fogo.
No lugar dos olhos,
Ponha lentes.
No lugar do um,
Ponha coisas.
No lugar do nada,
Ponha espelhos.
No lugar do dez,
Apanhe no horário.
No lugar de segredos,
Ponha falas.
No lugar da música,
Ponha os dedos.
No lugar da festa,
Ponha estrelas.
No lugar da rua,
Ponha diz que não.
No lugar da dor,
Não há remédio.
No lugar das falhas,
Ponha medalhas.
No lugar da frente,
Ponha o medo.
Num lugar ilusionista,
Aperte o botão.
No lugar do dia,
Ponha neblina.
No lugar da vida,
Ponha boa noite querida.
No lugar afinal,
Ponha a cabeça sobre o cobertor.

quarta-feira, março 28, 2007

UM NOVO CICLO DE RIQUEZAS

Oscar Quiroga


Data estelar: Mercúrio e Urano em conjunção no signo de Peixes, Lua cresce em Leão.

Enquanto isso, aqui na nave Terra um novo ciclo de riquezas materiais e espirituais anda se decidindo em tempo curto, resultando disso uma sensação de urgência que informa as almas humanas de não ser propício continuar perdendo tempo em tolices, preocupações ou aspectos periféricos.

O assunto agora é participar ativamente da decisão, pois o ciclo de riquezas significará prosperidade ou miséria, dependendo do objetivo e do método assumido para conquistá-lo. Por isso, aqui vai a dica, o método da competição desenfreada tem produzido, ao longo da história, desgraça e miséria, e agora se coloca à disposição de nossa humanidade a idéia de usar outro método, o da colaboração mútua, só que ainda ninguém sabe como fazer para aproveitar esse caminho.

em 28 de março de 2007

sábado, março 24, 2007

RE-SEIOS

Célia Demézio

Em cima da mesa ponho.
Debaixo da mesa guardo.
Limpo o pó de todo brilho.
Escolho o feijão que vou plantar olhando a noite germinar.
Ligo o ventilador e saio voando.
Passo férias de duas horas em Paquetá.
Então me lembro que esqueci a chave.
Volto mexendo os dedinhos como fossem nadadeiras no ar.
É hora de trabalhar!
Um prato apoiado no livro.
Sedas vazias.
Palitos apagados.
Um nó no fio da televisão.
Reviro gavetas atrás de sutiãs.
Procuro inspiração.

MÚSICA

Eduardo Sterzi

a musa voluptuosa
pede passagem

e lhe damos –
prosa:

qualquer imagem
vale mais

que a floração sentimental de uma
rosa:

gás lacrimogêneo,
luto, melancolia,

estrofe,
catástrofe,catarse:

deposita-se, linear
(limpa e suja como um verso)
pela praia pedregosa da palavra
- esta espuma.

(Do livro “Prosa”, publicado em 2001. Porto Alegre, Instituto Estadual do Livro.)

quinta-feira, março 22, 2007

COMO É POR DENTRO...

Fernando Pessoa

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

(1934)

NÃO ENTENDO

Clarisse Lispector


Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

segunda-feira, março 19, 2007

Sobre um certo Mário Quintana

Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade. Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?
Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.

O texto acima foi escrito pelo poeta para a revista Isto É de 14/11/1984.
Mário Quintana faleceu no dia 05/05/94.

A CARTA

Mário Quintana

Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!

(foto: arquivo Google, sem referência autor)

domingo, março 18, 2007

DIÁRIO DE BORDO

(ilustração: arquivo Google sem referência autor)


Oscar Quiroga


EM NOME DA EVOLUÇÃO

Data estelar: Mercúrio ingressa no signo de Peixes, e a Lua atinge sua fase nova nesse mesmo signo.


Enquanto isso, aqui na nave Terra, a partir de agora, e em nome da urgente contribuição que nossa humanidade deve prestar ao processo evolutivo do qual é parte integrante, cada dia há de tornar-se motivo para roubar um minuto daqueles que normalmente seriam displicentemente dedicados às preocupações. Esse minuto roubado diariamente há de ser consagrado ao esclarecimento, à elevação espiritual, pois de pouco em pouco nossa humanidade precisa contribuir ativamente para fechar a porta cósmica onde o Mal entra livremente, invadindo a sociedade humana com miséria.


Nossa humanidade é parte integrante e agente ativa desse mal, contribuindo com pensamentos nefastos, todos consagrados a deprimir-se e amargar-se. Esse panorama pode, e deve mudar, o quanto antes.


18 de março de 2007
http://www.astrologiareal.com.br/

SOBRE CAFÉS E CIGARROS


Fernando de Castro

Prometi não falar mais de cigarro. Pega mal. Parece apologia. Também já prometi tentar parar de fumar. Ainda nem tentei. É sabido que o cigarro é o pior de todos os vícios. Falar de cigarros talvez seja o segundo pior, hoje em dia. É difícil soprar a fumaça a seco, fuzilado por olhares saudáveis, sem poder contra-argumentar com qualquer coisa positiva. O cigarro fede às narinas evoluídas, e não adianta forjar considerações que ressaltem a noção de aroma. Não existe safra de tabaco. Ninguém pede um maço de Marlboro vermelho ano 63. A fumaça escurece pulmões alheios. Somos assassinos de nós mesmos e de uma legião de futuros triatletas. O estado de acuamento é quase justo e reforça a impressão de que não duraremos muito tempo. Todo cigarro tem sabor de último cigarro. Nosso destino é a extinção, assim como aconteceu com o Minister Extra Mild e a ética petista.

Comecei a fumar em 1996. Foi um ano e tanto para o Brasil. O frango virou herói nacional. FH nos chamou de caipiras. Morreram Renato, Russo, Mamonas Assassinas e PC Farias. Maluf elegeu Celso Pitta prefeito de São Paulo. Em Ipanema, a moda eram os apitos nas rodas em que se fumava maconha, para avisar que a polícia se aproximava. Não me lembro do meu primeiro cigarro, mas sei que não foi em Ipanema e que ainda não se fazia necessário usar um apito antes de acendê-lo. Não era caso de polícia.

O início dos anos 2000 pareceu uma época extremamente promissora para os novos tabagistas. Mal sabíamos que era o apagar das guimbas. Na Alemanha, fumava-se até em supermercado. Em Barcelona, em bares como o delicioso Oveja Negra, provocava-se: “Aceitam-se não-fumantes”, dizia a placa, numa versão bem mais politicamente incorreta do que a dos cafés portugueses da Ribeira, no Porto, onde as placas acusavam a proibição de se estudar no local. Foram nossos anos JK. Devíamos ter previsto que a dívida que nos esperava seria praticamente impossível de pagar.

Certa vez o Zuenir, com toda a sua elegância, ao me ver acendendo um cigarro, sugeriu que eu fazia besteira. O Zuenir sabe das coisas. Tentei ser espirituoso, que é a forma mais honrada de se falar asneiras e justificar fraquezas. Disse que apostava na medicina. No fundo, fazia um bem para a sociedade. A ciência precisava de tipos como eu. Só assim alcançaríamos a cura para as doenças potencializadas pelo consumo do cigarro. Não pretendia uma placa ou estátua quando esse dia chegasse. Nada de monumentos em homenagem ao fumante desconhecido. Tragava pelo bem da humanidade. Eu era assim, um abnegado. Zuenir riu. O Zuenir é um ex-fumante elegante.

O golpe definitivo contra nossa espécie foi essa lei que proíbe o consumo de cigarros em cafés, bares, restaurantes, farmácias ou qualquer outro estabelecimento que venda produtos de necessidade fundamental ao ser humano, como café, chope, bife à milanesa e desodorante. Foi o primeiro passo rumo a nossa anti-sociabilidade definitiva. Nosso prazer hoje está nos pequenos momentos. Aqueles em que nos vemos autorizados a desviar da lei, com a conivência indireta dos nossos inimigos – ou seja, os não-fumantes inveterados, a espécie que mais cresce no Brasil.

Meu único grande momento se deu há algumas semanas. Teve como palco um dos melhores cafés-restaurantes-livrarias da Zona Sul, cujo rigor da lei se faz enxergar nas diversas placas espalhadas por todas as suas dependências. Já recusava o endereço há algum tempo, pelo óbvio motivo de que não se podia mais fumar ali. Até que certa noite eu encontrei o Antônio Torres na porta. Chamou-me para um café, ao que fiz menção de recusar, mas o bom senso me avisou que um café com o Torres seria agradável até sem as necessárias doses de nicotina que o líquido exige.

Casa lotada, mesa central, o Torres não tardou dois minutos para acender um cigarro. Esperei pela reação dos outros clientes, convicto de que as primeiras queixas não demorariam. Mal sabia eu do prestígio do grande escritor. Sempre que alguém acusava o gesto de irritação, espiava a origem daquela fumaça e, permissivo com o vício do autor de Meu querido canibal, recolhia-se ao seu prato, numa das maiores manifestações de respeito que já vi um não-fumante praticar. Foi lindo. Fui de carona, no prestígio do Torres. Fumamos à beça, feito dois Cunhambebes entre tantos colonizadores. E, contrariando toda história recém-escrita, saímos de lá como vencedores.

(Artigo publicado no Jornal do Brasil, em 18 de julho de 2006
foto: www.diamang.com/diamang/Lunda/povo/ocupacoes/...)

sábado, março 17, 2007

SINAIS

letra e música: Cláudia Éfe

Baque solto na noite
Pulsamos na mesma cidade
De um lado, é claro
Do outro, é só futuro
Triste festa na aldeia
Meninos passeiam nus
Nossas caras lavadas a lua presenciou
Gemidos nos seus porões
para sempre
incêndio no meu país
Ferida aberta é a fome
saindo dos seus sinais
rumo à fronteira da nossa indiferença
Sonharão com dias melhores?
Futuro que nunca amanhece
eterno dia seguinte
sangrando a nossa arte
Poema concreto absurdo
Vanguarda em cima dos muros
para sempre

quarta-feira, março 14, 2007

LIVRE PARA FRACASSAR...

Hilda Hilst

O escritor e seus múltiplos vem vos dizer adeus.
Tentou na palavra o extremo-tudo
E esboçou-se santo, prostituto e corifeu.
A infância
Foi velada: obscura na teia da poesia e da loucura.
A juventude apenas uma lauda de lascívia, de frêmito
Tempo-Nada na página.
Depois, transgressor metalescente de percursos
Colou-se à compaixão, abismos e à sua própria sombra.
Poupem-no o desperdício de explicar o ato de brincar.
A dádiva de antes (a obra) excedeu-se no luxo.
O Caderno Rosa é apenas resíduo de um "Potlatch".
E hoje, repetindo Bataille:
"Sinto-me livre para fracassar".

terça-feira, março 13, 2007

DESEJOS

Naomi Conte

Um dia ela ainda
se solta
perde os brios
a pose
o medo
e nesse dia
há de me deixar à deriva

domingo, março 11, 2007

Não te rendas jamais

Eduardo Alves da Costa

Procura acrescentar um côvado à tua altura.
Que o mundo está à míngua de valores
e um homem de estatura justifica a existência
de um milhão de pigmeus a navegar na rota previsível
entre a impostura e a mesquinhez dos filisteus.
Ergue-te desse oceano que dócil se derrama sobre a areia
e busca as profundezas, o tumulto do sangue a irromper na veia
contra os diques do cinismo e os rochedos de torpezas
que as nações antepõem a seus rebeldes.
Não te rendas jamais, nunca te entregues,
foge das redes, expande teu destino.
E caso fiques tão só que nem mesmo um cão venha te lamber a mão,
atira-te contra as escarpas de tua angústia e explode em grito, em raiva, em pranto.
Porque desse teu gesto há de nascer o Espanto.

Sobre um certo poema no caminho...


O poeta Eduardo Alves da Costa garante que Maiakóvski nada tem a ver com o tema, assim noticia a Folha de São Paulo, edição de 20.9.2003, na íntegra:
"Um Maiakóvski no caminho"
Foi resolvida graças à novela das oito uma confusão de 30 anos. Escrito nos anos 60 pelo poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, 67, o poema "No Caminho, com Maiakóvski" era (quase) sempre creditado ao russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930).Em "Mulheres Apaixonadas", Helena (Christiane Torloni) leu um trecho do poema, dando o crédito correto. Foi o suficiente para reavivar a polêmica -resolvida dois capítulos depois, em que a autoria de Costa foi reafirmada- e, de quebra, fazer surgir uma proposta de reeditar o poema, para aproveitar a exposição no horário nobre.Livro combinado, a noite de autógrafos será na novela. "Pedi que apresse e me mande até o dia 10. Quero lançar aqui", diz Manoel Carlos, autor de "Mulheres". Eduardo Alves da Costa falou à coluna:Folha - Você se arrepende de ter posto Maiakóvski no título?Eduardo Alves da Costa - De maneira nenhuma! Tanto que vou usar o mesmo título para o livro que sai agora.Folha - Durante mais de 30 anos acreditaram que o poema era dele. Isso não o incomoda?Costa - Era uma enxurrada muito grande. Saiu em jornais com crédito para Maiakóvski. Fizeram até camisetas na época das Diretas-Já. Virou símbolo da luta contra o regime militar.Folha - Como surgiu o engano?Costa -O poema saiu em jornais universitários, nos anos 70. O psicanalista Roberto Freire incluiu em um livro dele e deu crédito ao russo e me colocou como tradutor. Mas já encomendei da França a obra completa do Maiakóvski. Quando alguém me questionar, entrego os cinco volumes e mando achar o poema lá.
"Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada"
Trecho do poema de Eduardo Alves da Costa atribuído ao russo Vladimir Maiakóvski.
Leia agora o poema inteiro
NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti,
Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,aprendi a ter coragem.
Tu sabes,conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,matam nosso cão,e não dizemos nada.
Até que um dia,o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,porque não estou amedrontado
a ponto de cegar,
que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortinal
ançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,no plantio.
Mas ao tempo da colheitalá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos laresmas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condiçãode falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,o coração grita - MENTIRA!

sábado, março 10, 2007

insanidades

foto: arquivo Google, sem referência autor
Gabriela Azevedo & Cláudia Éfe



Vaõ-se as penas

ficam os poemas

sábado, março 03, 2007

REFERENDO EM PORTUGAL

DESPENALIZAÇÃO DO ABORTO EM PORTUGAL: A CONFIANÇA NA DECISÃO DAS MULHERES
(Texto enviado pelas Historiadoras
Alcilene Cavalcanti e Gabriela Azevedo)

A sociedade portuguesa, no último 11 de fevereiro, deu um basta ao obscurantismo e aos grupos fundamentalistas e conservadores que se opunham ao livre exercício da cidadania e aos direitos individuais, por conseguinte opunham-se à democracia. Mulheres e homens de Portugal votaram Sim pela despenalização da interrupção voluntária da gravidez, por opção da mulher, até a 10ª semana, em estabelecimento regulamentado pelo Estado. Aproximadamente 59% dos/as votantes expressaram a confiança na capacidade que as mulheres têm de tomar decisão com base na ética e na moral.
Católicas pelo Direito de Decidir colaborou com essa conquista para a Democracia, logo, para os Direitos Humanos das Mulheres, apresentando, juntamente com católicos/as mandatários/as de diferentes movimentos pelo Sim, em oito cidades portuguesas (Angra do Heroísmo, Ponta Delgada – Açores –, Serpa, Porto, Braga, Viseu, Coimbra e Lisboa), argumentos que servissem de subsídios para crentes e não crentes – para usar expressão muito pronunciada em Portugal – votarem a favor de as mulheres terem o direito de decisão e, com isto, de não serem penalizadas e humilhadas.
Quando uma mulher decide abortar – seja por qual motivo for – ela analisa suas próprias condições de vida e o que poderia ofertar para uma futura criança. Trata-se de um gesto de grande responsabilidade e de difícil decisão, no qual a mulher faz uso de sua consciência. Ao contrário, pressupor algo diferente disto, implicaria considerar as mulheres irresponsáveis, insanas e desvairadas. Infelizmente, essa visão sobre as mulheres ainda é presente em certos segmentos sociais que defendem a criminalização do aborto, ignorando os desdobramentos do aborto inseguro para a saúde da mulher e manifestando descaso para com a maternidade e a paternidade responsáveis – ao menos foi o que se ouviu em diferentes pronunciamentos daqueles que fizeram campanha pelo Não, em Portugal, e que encontram equivalência também no Brasil.
A propósito, foi espantoso acompanhar a manipulação de informações empreendida pelos mandatários que defendiam o voto Não: aquelas pessoas alegavam a defesa incondicional da vida – mas defendiam apenas o embrião –; criaram a maior confusão acerca da idade fetal, como se não houvesse diferença alguma entre as denominações embrião, feto, criança, filho; médicos/as pesquisadores/as apresentaram ultrassonografias de gravidezes de 20 semanas como se fossem imagens de 10 semanas; apresentaram ecografias e audios de batimentos cardíacos referentes a idade fetal de 18 semanas ou mais como sendo relativos a 10 semanas; os conteúdos de cartazes, panfletos e outdoors eram absolutamente apelativos, o que procurava inviabilizar diálogos com base na razão.
Além disso, tais grupos argumentavam que a alteração da lei geraria aumento da demanda de mulheres para abortar e isto acarretaria a implosão da rede de saúde, tornando necessário aumentar os impostos dos contribuintes para se arcar com os custos desse tipo de serviço. Ora, primeiro, ignoraram que toda política social, principalmente, que implica redução de danos, tem uma demanda maior em um primeiro momento; segundo, suscitaram que as mulheres são irresponsáveis; terceiro, desconsideraram o custo que o Estado já tem devido ao aborto clandestino: afinal, centenas de mulheres são internadas anualmente, em hospitais portugueses, por complicações de abortos inseguros.
Mas, apesar dessa tentativa de criar confusão, os portugueses e as portuguesas não se deixaram manipular: votaram Sim pela despenalização da interrupção voluntária da gravidez, por opção da mulher, até a 10ª semana – configurando uma diferença de quase 20% a mais dos votos em relação ao Não.
Há ainda três aspectos a sublinhar: o primeiro, refere-se ao fato de que a população de Portugal (11 milhões de habitantes) é menor do que a da capital de São Paulo, não sendo o voto obrigatório sequer nas eleições para parlamentares; em segundo lugar, a sociedade civil portuguesa envolveu-se diretamente no referendo, expondo-se publicamente por meio de agrupamentos específicos que envolviam médicos; parlamentares de diferentes partidos; religiosos; operadores do direito; professores; jovens; artistas; intelectuais; mídias, organizações sociais; enfim, homens e mulheres.
O último aspecto. O referendo foi a saída que o governo português encontrou para superar os entraves dos segmentos sociais que não se dispunham a compreender a relação entre direitos reprodutivos e democracia, bem como guardavam uma visão bastante estereotipada sobre as mulheres. Contudo, interromper ou não uma gravidez, além de ser algo de foro íntimo, o que deve ser resguardado, no máximo regulamentado em regimes democráticos, consiste em direitos reprodutivos que, como tais, não configuram matéria de referendo ou plebiscito. Acrescente-se, ainda, que a criminalização do aborto não reduz a prática, ao contrário, transforma a matéria em problema de saúde pública.
Desse modo, enfrentar honestamente a problemática do aborto – presente em diferentes sociedades – exige, em nosso caso, não um referendo ou um plebiscito, mas que nossos/as parlamentares descriminalizem o aborto e regulamentem sua prática e, assim, alinhe o Brasil aos demais países democráticos.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007


Amigos, o poeta Zeca de Magalhães remanescente do movimento URBANA e também um dos fortes nomes da poesia marginal, faleceu no dia 24 de fevereiro.
Ele foi vítima de uma queda acidental e sofreu traumatismo craniano.

Nossa saudade e homenagem ao Amigo e Poeta

paixões
não são
inflamáveis
quando duram,
infláveis
quando
muito
palpáveis
quando
nada
um pouco
é tudo.

(Zeca de Magalhães)
poema extraído do livro do autor"O NOME DO VENTO"Edição de 1998

domingo, fevereiro 25, 2007

PASSAGEM DAS HORAS

Álvaro de Campos

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente
Yat-iô--ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô ... Ghi-...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...
Tempestades em torno ao Guardaful...
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...
Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...

Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.
A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?
Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?
Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.
Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico...
Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...
Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Uma razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.
Por isso sê para mim materna, ó noite tranqüila...
Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,
Tu que não existes, que és só a ausência da luz,
Tu que não és uma coisa, um lugar, uma essência, uma vida,
Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,
Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte...
'Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,
Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,
Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,
Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...
Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem...
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —
Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.
Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.

Tudo é a razão de ser da minha vida.
Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.
Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!
(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!
Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim ...
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer cousa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.
(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,
Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,
Com as cabeças femininas coiffées de lin
E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...
Aquela que é o anel deixado em cima da cômoda,
E a fita entalada com o fechar da gaveta,
Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,
Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la ...
Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,
Definitivamente para todo o resto do Universo,
E que os carros me passem por cima.)
Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas ás emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
A cadela a uivar de noite,
O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,
O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,
A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
Ó fome abstrata das coisas, cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida!
Obter tudo por suficiência divina —
As vésperas, os consentimentos, os avisos,
As cousas belas da vida — O talento, a virtude, a impunidade,
A tendência para acompanhar os outros a casa,
A situação de passageiro,
A conveniência em embarcar já para ter lugar,
E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase,
E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.
Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.

Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.
Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário,
Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia
Que a dor real das crianças em quem batem
(Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem —
E por que é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)
Eu, enfim, que sou um diálogo continuo,
Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,
Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque
E faz pena saber que há vida que viver amanhã.
Eu, enfim, literalmente eu,
E eu metaforicamente também,
Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso
As leis irrepreensíveis da Vida,
Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,
O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,
Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo
E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...
Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,
Sem personalidade com valor declarado,
Eu, o investigador solene das coisas fúteis,
Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,
E que acho que não faz mal não ligar importâricia à pátria
Porque não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz
Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,
Como uma frase escrita por um doente no livro da rapariga que encontrou no terraço,
Ou uma partida de xadrez no convés dum transatlântico,
Eu, a ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicos,
Eu, o policia que a olha, parado para trás na álea,
Eu, a criança no carro, que acena à sua inconsciência lúcida com um coral com guizos.
Eu, a paisagem por detrás disto tudo, a paz citadina
Coada através das árvores do jardim público,
Eu, o que os espera a todos em casa,
Eu, o que eles encontram na rua,
Eu, o que eles não sabem de si próprios,
Eu, aquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorriso,
Eu, o contraditório, o fictício, o aranzel, a espuma,
O cartaz posto agora, as ancas da francesa, o olhar do padre,
O largo onde se encontram as suas ruas e os chauffeurs dormem contra os carros,
A cicatriz do sargento mal encarado,
O sebo na gola do explicador doente que volta para casa,
A chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempre,
E tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)...
Eu, o ditado de francês da pequenita que mexe nas ligas,
Eu, os pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustre,
Eu, a carta escondida, o calor do lenço, a sacada com a janela entreaberta,
O portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primo,
O sacana do José que prometeu vir e não veio
E a gente tinha uma partida para lhe fazer...
Eu, tudo isto, e além disto o resto do mundo...
Tanta coisa, as portas que se abrem, e a razão por que elas se abrem,
E as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas...
Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões,
A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos,
Sem que haja uma lápida no cemitério para o irmão de tudo isto,
E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa...
Sim, eu, o engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinha,
E uso monóculo para não parecer igual à idéia real que faço de mim,
Que levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso natu
ral, Mas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-me, Não tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida... Sim, enfim, eu o destinatário das cartas lacradas, O baú das iniciais gastas, A entonação das vozes que nunca ouviremos mais - Deus guarda isso tudo no Mistério, e às vezes sentimo-lo E a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo. A Brígida prima da minha tia, O general em que elas falavam - general quando elas eram pequenas, E a vida era guerra civil a todas as esquinas... Vive le mélodrame oú Margot a pleuré! Caem as folhas secas no chão irregularmente, Mas o fato é que sempre é outono no outono, E o inverno vem depois fatalmente, há só um caminho para a vida, que é a vida...
Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos, Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais, E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.
Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas, E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra. Não me subordino senão por atavisnio, E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.
Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades Acessíveis à imaginação Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer, Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira, Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.
No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa, Vou ao lado dela sem ela saber. No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado, Mas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá. Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me, Não há modo de eu não estar em toda a parte. O meu privilégio é tudo (Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).
Assisto a tudo e definitivamente. Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim, Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira, Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso, Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinqüenta Que não seja para mim por uma galantaria deposta.
Fui educado pela Imaginação, Viajei pela mão dela sempre, Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso, E todos os dias têm essa janela por diante, E todas as horas parecem minhas dessa maneira.
Cavalgada explosiva, explodida, como uma bomba que rebenta, Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo, Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo, Galga, cavalo eléctron-íon, sistema solar resumido Por dentro da ação dos êmbolos, por fora do giro dos volantes. Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstrata e louca, Ajo a ferro e velocidade, vaivém, loucura, raiva contida, Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas, E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.
Ho-ho-ho-ho-ho!... Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo Adiante da própria idéia veloz do corpo projetado, Com o espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa, He-la-ho-ho ... Helahoho ...
Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo... A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe As rodas da locomotiva, as rodas do elétrico, os volantes dos Diesel, E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.
Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente, Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo, Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca... Ho ----
Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo! Ave, salve, viva a igualdade de tudo em seta! Ave, salve, viva a grande máquina universo! Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis! Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, idéias abstratas, A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna, A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso, O resto, o estático resto que fica nos olhos que param, Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves, Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem, Nos meus nervos locomotiva, carro elétrico, automóvel, debulhadora a vapor
Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel, Campbell, Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a eletricidade, Máquina universal movida por correias de todos os momentos!
Todas as madrugadas são a madrugada e a vida. Todas as auroras raiam no mesmo lugar: Infinito... Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta, Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore, E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...
Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra, Rola, auroreada, entardecida, a prumo sob sóis, noturna, Rola no espaço abstrato, na noite mal iluminada realmente Rola ...
Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra, E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim, Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio, Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo, Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstrato, Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas, A Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo ...
Ah, não estar parado nem a andar, Não estar deitado nem de pé, Nem acordado nem a dormir, Nem aqui nem noutro ponto qualquer, Resol,,,er a equação desta inquietação prolixa, Saber onde estar para poder estar em toda a parte, Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas ... Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho
Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas, Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas, Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas ...
Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques, Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos, Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias, Numa velocidade crescente, insistente, violenta, Hup-la hup-la hup-la hup-la ...
Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas, Cavalgada energética por dentro de todas as energias, Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde, Clarim claro da manhã ao fundo Do semicírculo frio do horizonte, Tênue clarim longínquo como bandeiras incertas Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis ...
Clarim trêmulo, poeira parada, onde a noite cessa, Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade ...
Carro que chia limpidamente, vapor que apita, Guindaste que começa a girar no meu ouvido, Tosse seca, nova do que sai de casa, Leve arrepio matutino na alegria de viver, Gargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei como, Costureira fadada para pior que a manhã que sente, Operário tísico desfeito para feliz nesta hora Inevitavelmente vital, Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático, Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas Abrem aqu; e ali os olhos cortinados a branco...
Toda a madrugada é uma colina que oscila, ...................................................................... e caminha tudo Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras E rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estruge Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens — Sol dos vértices e nos... da minha visão estriada, Do rodopio parado da minha retentiva seca, Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver. Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol rua, Aros caixotes trolley loja rua i,itrines saia olhos Rapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar rua Passeio lojistas "perdão" rua Rua a passear por mim a passear pela rua por mim Tudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de lá A velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras, O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto rua O meu passado rua estremece camion rua não me recordo rua Eu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mim Rua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez rua Rua pra trás e pra diante debaixo dos meus pés Rua em X em Y em Z por dentro dos meus braços Rua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno, Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua. Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo. Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá. Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio! Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele! Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te Por todos os precipícios abaixo E choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!
À moi, todos os objetos projéteis! À moi, todos os objetos direções! À moi, todos os objetos invisíveis de velozes! Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me! Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso! A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim! Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias, Velocidade entra por todas as idéias dentro, Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os, Chamusca todos os ideais humanitários e úteis, Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes, Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado Os corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas, Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstrato nos ares, Senhor supremo da hora européia, metálico a cio. Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus! ............................................................... ...............................................................
Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói, Dec4ina dentro de mim o sol no alto do céu. Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos. Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar? Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata, Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo, Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés, Calcar, calcar, calcar até não sentir. Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis, Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.
Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos, Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços, Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago, Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu. Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...
Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

contemplação

(ilustração: arquivo Google, s/referência autor)

Cláudia Efe


Tem dias que eu acordo
Com a cor da bola de gude que eu mais gostava
Com o cheiro do plástico da boneca nova
Com a fruta que eu colhi no pé
Com os desenhos do livro que eu ainda não lia
Com a bicicleta sem rodinhas
Com a primeira caneta que, até então, era um lápis

Tem dias que me acontecem
o pudim da minha avó
a casa cheia pro almoço do domingo
e aquele zigue-zague de pratos e canelas de meninos
aí eu vejo que não há passado
e que tudo está ali, de algum jeito
do seu próprio jeito
a vida escreve uns versos
pela vida inteira

domingo, fevereiro 18, 2007

EVOÉ


ADNKRONOS.Pierrot in abito bianco a pois neri per il numero"Pierrot e la luna" dallo spettacolo "Varietà" del1924-25. (foto Sandra Onofri/adnkronos. Fonte: arquivo Google)




Cláudia F.

Para o amor torto
Para o amor farto
Para o amor largo
Para o amor perdido
e todos os encontros:
afinal,
é carnaval

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Missa de 7º dia

Amigos,

primeiramente, quero agradecer comovido a todos que acompanharam, fisica ou espiritualmente,
a luta do meu amigo e companheiro Marcio Carvalho pela vida. Infelizmente, essa luta terminou
dia 9 de fevereiro, sexta-feira passada. Deus o levou para perto, Ser de grandiosa Luz que ele
era (é).
Obrigado, de coração, aos amigos que ajudaram com palavras de fé, orações, um abraço carinhoso, um "alô" solidário e, mesmo, financeiramente. Não posso nominá-los - foram centenas, cada qual
com um gesto de solidariedade.
Na certa, o Marcio, onde estiver, estará com um sorriso de paz e gratidão por tanta generosidade.
Agradeço, ainda, a quem compareceu ao velório e ao enterro, para dar seu último adeus ao meu amigo.
Ele foi a pessoa mais generosa, honesta e solidária que pude conhecer até hoje. Acho que, por isso, Deus o chamou, aos 39 anos, para colaborar com Ele, junto às outras almas de Luz.
Ainda comovido, deixo o aviso da missa de Sétimo Dia de seu passamento:
Dia 15 de fevereiro (quinta-feira), às 11h,
Igreja de São José
-Av. Presidente Antonio Carlos, esq. c/ São José-
(perto do Forum e da Câmara).
Praça XV
Desde já, obrigado aos que puderem comparecer.
Abraços fraternos, Tanussi Cardoso

HIERÓGLIFO

a poesia
despe-me
de saberes
pré-histórico
rumino
em cavernas
a ossatura
do homem

MARCIO CARVALHO
(do seu livro NAVALHAS VOADORAS PARA CORTAR A TARDE, ed. SEERJ)

MARCIO CARVALHO era jornalista, poeta, ensaísta e arte-educador.
Diretor de Comunicação do SEERJ e membro do Grupo Poesia Simplesmente.
Em 2006, representou o Brasil no Segundo Festival Latinoamericano de Poesia "ser al fin una palabra", dentro do Dia Mundial da Poesia, no México.
Nasceu em 12/04/67 e se elevou a outro plano em 09/02/2007, aos 39 anos

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

FHERNANDA CANTA MINAS


Amanhã, sábado, dia 10 de Fevereiro, a partir das 21h30 a cantora, compositora e instrumentista FHERNANDA se apresenta no Bar Palácio, rua Buarque de Macedo, n° 87, Catete. O Show "Fhernanda canta Minas" tem participação especial de José Luiz, voz e violão.


O novo Bar Palácio promete ser o reduto da boa música produzida no Rio de Janeiro. Vale conferir.


Serviço:
Reservas: 2556 6020 ou 2558 6242 - Couvert R$13,00
Endereço: Rua Buarque de Macedo nº 87 - Catete.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

SIMPLICIDADE

foto: arquivo google s/referência autor
Jorge L. Borges

Abre-se a grade no jardim
com a docilidade da página
que a devoção freqüente interroga
e lá dentro o olhar
não precisa se fixar nos objetos,
que já estão firmemente na memória.
Conheço os costumes e conheço as almas
e esse dialeto de alusões
que todo grupo humano vai urdindo.
Não preciso falar
nem fingir privilégios;
os que me rodeiam me conhecem bem,
e as minhas mágoas e fragilidades.
Isto, sim, é chegar ao ponto mais alto,
o que talvez nos traga o Céu:
não as admirações ou as vitórias,
mas simplesmente sermos recebidos
como parte de uma Realidade inegável
como as pedras e as árvores.

(O poema de JORGE é um presente de JANAíNA MESQUITA)

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

PIRATA

foto: arquivo google s/referência autor
Sophia de Mello Breyner

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

domingo, fevereiro 04, 2007

AMÉLIA MUGE DÁ VOZ E MÚSICA À POESIA


"VOZ QUE CANTA COM AS SECRETAS FONTES DO CORPO"

Cristiano Pereira

"Não sou daqui, mas gosto d'aqui estar
de aprender no lugar do outro a m'encontrar
de poder um lugar achar, no estar aqui
desejar o lugar de todos neste lugar
e saber, no lugar d'aqui, o meu lugar".

São palavras destas que se ouvem em "Não sou daqui", novo disco de Amélia Muge e primeiro de uma trilogia que há-de ser completada num futuro breve.

A obra, gravada em três dias, acasala música com poemas de Sophia de Melo Breyner, António Ramos Rosa, Hélia Correia ou Eugénio Lisboa. Mas Amélia Muge também escreve sete letras.

O disco parte do um registo próximo do fado para ir desaguando em algo mais como a música tradicional de inspiração quase folclórica ou espécie de jazz - para além disso, por vezes um pouco assume um andamento quase pop.

Todas as composições são assinadas por Amélia Muge.

O piano é, provavelmente, o instrumento com maior protagonismo ao longo destas 13 faixas que se prolongam por quase 50 minutos. Mas não faltam apontamentos elegantes de violoncelo, flautas, contrabaixo, guitarras, um acordeão o, claro, percussão discreta. Trata-se de um disco equilibrado, sem momentos altos, é certo, mas também sem canções secantes. A cantora prepara-se, agora, para apresentar este repertório nos palcos, algo que acontecerá já dia 17 de Fevereiro na Culturgest, em Lisboa. Seguir-se-á, a 2 e 3 de Março, o Auditório do Centro de Artes Perfomativas do Algarve, em Faro, e, no dia 10 de Março, o Auditório Municipal na Ribeira Grande, na Ilha de São Miguel. No dia 24 de Junho, Amélia Muge actua na Cité de la Musique, em Paris.

O álbum apresenta-se como um objecto a fruir também com os olhos. No libreto não falta um conjunto de desenhos da autoria da própria cantora, um excerto de "As identidades asssassinas", de Amin Maalouf, um pequeno vídeo captado por telemóvel "interrogando o meio técnico utilizado e fazendo da sua fraqueza uma fonte da criação".

Só é pena que o registo seja acompanhado por demasiado paleio que tenta explicar tudo e mais alguma coisa, acabando por se tornar algo maçador e até pretensioso.

Ou seja A música e as letras falam por si e são escusadas estas tentativas de intelectualizar tudo em nome da "modernidade" ou "contemporaneidade".

Mas aplaudem-se a presença das palavras de António Ramos Rosa. Como um poema inspirado na cantora, do qual se cita "É uma voz que canta com as secretas fontes do corpo/ Com as pálpebras, com as pupilas, com os braços côncavos/ E é como se reunissem em voluptuosas braçadas/ as grandes flores do vento, as lentas anémonas do mar/ Essa voz tem a nudez sombria de um afectuoso felino/ e nasceu talvez da respiração quando dilatou o ventre/ para libertar os tumultuosos arcos/ que ela modela ao ritmo das sombras/ e das lâmpadas vegetais entre os seus flancos azuis".

INFINITO PARTICULAR

Letra & Música: Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown

Eis o melhor e o pior de mim

O meu termômetro, o meu quilate
Vem cara, me retrate

Não é impossível
Eu não sou difícil de ler

Faça sua parte

Eu sou daqui e não sou de Marte
Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta-bandeira de mim

Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular

Em alguns instantes

Sou pequenina e também gigante
Vem cara, se declara

O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder

Olha minha cara

É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo

A água é potável
Daqui você pode beber

Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular

CAIXA VAI AMPLIAR BENEFÍCIOS PARA CASAIS HOMOSSEXUAIS

AGÊNCIA ESTADO
Sáb, 03 Fev, 08h24



A Caixa Econômica Federal pretende ampliar os benefícios concedidos para companheiros de mesmo sexo de seus funcionários. A iniciativa, que começou em 2006, atende atualmente 282 pessoas e faz parte do Programa de Gestão da Diversidade, lançado em 2005 pela instituição financeira. A estimativa é de que o número de pessoas beneficiadas pelo banco pode chegar a algo entre 11,2 mil e 14 mil.

Essa projeção da Caixa Econômica está baseada em pesquisas mundiais que apontam que, no quadro interno das empresas, existe um porcentual entre 8% e 10% de funcionários com orientação homossexual. A Caixa Econômica tem cerca de 70 mil funcionários.

Essa medida de extensão de benefícios adota como princípio que a relação estável entre companheiros do mesmo sexo tem as mesmas prerrogativas da união estável de companheiros de sexo diferente. Dessa forma, todos os benefícios concedidos a um casal, como por exemplo o plano de saúde, são estendidos aos pares de orientação homossexual.

Para comprovar a relação estável, porém, o par homossexual deve apresentar uma quantidade mínima de documentos. Entre eles, além do documento interno onde o funcionário declara sua união estável, estão outros como a declaração firmada em cartório, prova de mesmo domicílio.

Ainda é necessário, para os interessados, comprovar que existe uma conta bancária conjunta, a propriedade conjunta de um imóvel, além da inscrição como dependente em associações, como por exemplo clubes e prova de encargos domésticos conjuntos.

sábado, fevereiro 03, 2007

NINAH JO

foto: Moema
É hoje!

A cantora NINAH JO encerra temporada hoje, sábado, dia três de fevereiro, às 21h30, no Bar Palácio. O Palácio fica na rua Buarque de Macedo, n° 87, quase esquina com a rua do Catete.

Ninah Jo promete "canjas surpresa" para a noite, vale conferir.

Reservas pelos telefones 2556 6020 ou 2558 6242.


fotos: arquivo google, s/referência autor
ELTON MEDEIROS

TOM ZÉ
Letra & Música: Elton Medeiros & Tom Zé

Tô bem de baixo prá poder subir
Tô bem de cima prá poder cair
Tô dividindo prá poder sobrar
Disperdiçando prá poder faltar
Devagarinho prá poder caber
Bem de leve prá não perdoar
Tô estudando prá saber ignorar
Eu tô aqui comendo para vomitar

Tô te explicando
Prá te confundir
Tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tô iluminando
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar

Devagarinho prá poder rasgar
Olho fechado prá te ver melhor
Com alegria prá poder chorar
Desesperado prá ter paciência
Carinhoso prá poder ferir
Lentamente prá não atrasar
Atrás da vida prá poder morrer
Eu tô me despedindo prá poder voltar

sábado, janeiro 27, 2007

percepções

Cláudia Ferrari



foto: arquivo google s/referência autor

Ande um dia com a pele do outro
conviva
deixa a alma ser um pouco o outro
e arda
queime
desespere
mas apazigue
o espontâneo fere
mas só assim
se existe

SANDRA GREGO NA LAPA



A cantora, compositora e instrumentista cumpre temporada no restaurante Salsa & Cebolinha, reduto da boemia carioca.

Todas as quintas-feiras, a partir das 19h

Endereço: Rua Gomes Freire, 5l7 (próximo aos estúdios da TVE)
Telefone: 2252 3672

sexta-feira, janeiro 26, 2007

MADRUGADAS

(estão no telhado e mordendo a lua
lá se vão os gatos
assim
vagabundando
madrugadas... fragmentos de GATOS, Cláudia F)





Música - Wania Andrade . Letra - Cláudia Ferrari

Ouve este silêncio e o que ele diz
Madrugadas são assim,
como amores que hão de vir
e tudo chamará destino
Vento, noites, dias lentos,
Pele que nos incendeia
A vida nos navega, pela parte inteira
Hoje é eternamente palavra,
princípio e fim
É fundamento, tatuagem e cicatriz

quinta-feira, janeiro 25, 2007




A querida WANIA ANDRADE está pelas bandas dos portugais produzindo um cd, além de tudo.
cá estamos nós a contemplá-lo.
essa melodia vaza... e quase morri na noite de hoje

Como diria Tereza

Wânia Andrade, Letra e Música

Tirando um som pra te esquecer
Tirando um som pra te tirar de mim
Tirando um som pra aprender
Como é que faz pra não sofrer assim
Tirando um som pro tempo te levar
Que é pra talvez assim, não machucar
Tirando um som pra não lembrar
Que se eu pudesse eu ia pra ficar
Tirando um som pra te tirar de mim
Tirando um som e assim, tentar enfim
Tirar o som de ser feliz...

Click on the link below to access wandrade's folder (or copy and paste it into your browser):
http://www.esnips.com/fm/c17862ce-764e-4434-8ad0-8e8dc8a70e41/?v=157848&source=ws

Instinto

foto: arquivo google s/referência autor

para Hilda

Cláudia F.

se eu sinto que há
existe
língua em riste

sábado, janeiro 20, 2007

Sebastian

Alberto da Veiga Guignard
1896-1962


Milton Nascimento & Gilberto Gil


Sebastian, Sebastião
Diante da tua imagem
Tão castigada e tão bela
penso na tua cidade
Peço que olhes por ela

Cada parte do teu corpo
Cada flecha envenenada
Flechada por pura inveja
é um pedaço de bairro
é uma praça do Rio
Enchendo de horror quem passa

Oô cidade, oô menino
Que me ardem de paixão
Eu prefiro que essas flechas
Saltem pra minha canção
Livrem da dor meus amados

Que na cidade tranqüila
Sarada cada ferida
Tudo se transforme em vida
Canteiro cheio de flores
pra que só chorem, querido,
Tu e a cidade, de amores
recebi de gabriela, na tarde de hoje, o poema de manoel.
gabriela também é poema.

RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA (do livro)


Manoel de Barros

Há um cio vegetal na voz do artista.
Ele vai ter que envesgar seu idioma ao ponto
de alcançar o murmúrio das águas nas folhas
das árvores.
Não terá mais o condão de refletir sobre as coisas.
Mas terá o condão de sê-las.
Não terá mais idéias: terá chuvas, tardes, ventos,
passarinhos...
Nos restos de comida onde as moscas governam
ele achará solidão.
Será arrancado de dentro dele pelas palavras
a torquês.
Sairá entorpecido de haver-se.
Sairá entorpecido e escuro.
Ver sambixuga entorpecida gorda pregada na
barriga do cavalo --
Vai o menino e fura de canivete a sambixuga:
Escorre sangue escuro do cavalo.
Palavra de um artista tem que escorrer
substantivo escuro dele.
Tem que chegar enferma de suas dores, de seus
limites, de suas derrotas.
Ele terá que envesgar seu idioma ao ponto de
enxergar no olho de uma garça os perfumes do
sol.

sobre o TAO

arquivo google sem referência autor


Jacob Levy Moreno



“Deus é espontaneidade, daí o mandamento: Sê espontâneo!”(10). Onde está Deus? No Universo. E cada um de nós tem um pequeno Deus porque descendemos do Universo, descendemos do Tao absoluto. Se nos maiores graus de espontaneidade podemos chegar ao cosmos, ao limite do humano com o divino, por que espontaneidade não pode ser energia, se esta é a que deu origem a tudo e se faz presente na forma?

Provérbio Chinês

"Há três coisas na vida que nunca voltam atrás:
a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida."

segunda-feira, janeiro 15, 2007

fragmentos de "Hoje"


Cláudia F.


Deus me deu versos para que eu não me saiba

ACASO

Álvaro de Campos


No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.
A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

POEMA COMEÇADO DO FIM

Adélia Prado


Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse voce e' estupido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

terça-feira, janeiro 09, 2007

POÉTICA

Manuel Bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de
agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

domingo, janeiro 07, 2007

dúvida

letra e música: cláudia f.

quando despencar a tarde
vou colecionar
restos de palavras que você deixou
caídas sobre a mesa
atrás da porta, no corredor

troco de roupa, troco de casa, troco de mundo
e você lá em mim
não me disfarço eu te reconheço
em todos os rostos, por todas as portas,
fendas nas calçadas
rachaduras nas paredes abrem túneis nas cidades

e se eu me lanço, e se eu me esborracho?
e se eu fico quieto, e se o mundo pára?
daí a dúvida

poemas para curvas, poemas para estradas: automóveis
poemas para os homens, poemas para quem tem fome
chuva de silêncios e palavras
de vazios e de cores

palavra girassol para Van Gogh
palavra serpentina para Dona Santa
com a saudade a palavra de Cartola

e se eu me lanço, e se eu me esborracho?
e se eu fico quieto, e se o mundo pára?
daí a dúvida

tudo um grande susto, tudo um grande circo
por isso a nossa cara de palhaço
e o mundo era assim, um grande picadeiro

sábado, janeiro 06, 2007

Hoje a Vila está em Festa!



60 anos de Lícia Maria Caniné
a nossa RUÇA*!
Todos os tambores e palmas pra essa Filha de Iansã!

* é com ç mesmo

quinta-feira, janeiro 04, 2007

União civil homossexual


ENTRE A MORAL E A ÉTICA
Desde o XX, o homem pode ir à lua.
Amar o semelhante é outra página da história

por Cláudia Ferrari

Século XXI, planeta Terra. Eis o homem aportado sobre a sua diversidade. Para a maioria das coisas, a moral, que referenda nossos costumes e crenças, nossa cultura oficial, nos dá o norte. A ética, código que nos transcreve em bússola, que se conjuga com valores que não, necessariamente, estão vinculados à moral e aos "bons costumes", mas ao humano e suas infinitas e múltiplas possibilidades, nos compreende em diversidade e conceitos e é, portanto, amoral.

Eis o amor e alguns dos seus direitos: o da escolha, o do desejo, o de transcender tempo e espaço e a si mesmo. O de amar, simplesmente. "Quem casa, quer casa", diz o provérbio popular. São inegáveis as conquistas que, desde a década de 80, do século passado, os movimentos gays têm alcançado no Brasil e no mundo. Nas mídias, em todas elas, o público GLS, com potencial poder econômico – diga-se - paulatinamente, demarca seu território. Saem dos guetos, dos "armários" – jargão para os "não assumidos" – da condenação à clandestinidade, e, desprovidos dos estereótipos que a própria mídia, na maioria das vezes, lhes confere, os homossexuais rompem a barreira da hipocrisia engendrada por um complexo aparato social. Alicerce, aliás, a hipocrisia, da sociedade fundamentada na moral e nos bons costumes - para uma leitura "Rodriguiana".

Constituir uma família, criar filhos, vínculos, patrimônio lícito é um direito questionável? Garantir a integridade de si próprio e desse cônjuge, desses filhos, desses vínculos, desse lícito patrimônio construído, desse direito de ser social, isso é questionável? Que diferença faz a orientação sexual do outro em sua vida? No que ele é diferente de você? No que ele pode menos, deve menos, deve mais? Na vida deles, delas, isso, certamente, faz muita diferença. Os homossexuais, bissexuais, transexuais, gays, lésbicas, travestis, assim, como os heterossexuais, também estudam, trabalham, namoram, se apaixonam, amam, constituem família, criam filhos. Eles, Elas, também envelhecem, também adoecem e, como todos os seres vivos, também são finitos. Mas por que isso incomoda tanto uma camada significativa da sociedade?

No ano de 2003, por exemplo, o Vaticano lançou uma campanha mundial contra a união civil homossexual. A Igreja católica enfatiza nesse momento, a necessidade de que os políticos católicos de todo o mundo se manifestem imperativamente contra qualquer lei que incentive tal união. Em 11 páginas, o documento, entre outras citações, é enfático: reconhecer a união civil entre homossexuais "significa não apenas aprovar um comportamento desviado e convertê-lo em modelo para a sociedade atual, como também afetar os valores fundamentais que pertencem ao patrimônio comum da humanidade". Ironicamente, o mesmo Vaticano cala nos seus porões a pedofilia praticada por alguns de seus representantes e discípulos, assim, como outras deturpações: a igreja católica é veemente contra o uso de preservativos, ignorando a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, principalmente, a AIDS; o aborto, inclusive o de mulheres sexualmente violentadas, para citar alguns.

Contrariando tal recomendação eclesiástica, vários países, inclusive católicos, criaram leis que regulamentam e garantem a união civil entre homossexuais. Argentina (Buenos Aires), Espanha, Bélgica, Holanda, França, Portugal, Dinamarca, Canadá, Alemanha, Croácia, Grã-Bretanha, Suíça, Estados Unidos, Nova Zelândia, entre outros, legitimaram o que no Brasil ainda é, somente, uma vaga possibilidade, iniciativas isoladas, pontuais.

O BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, por exemplo, desde 2004, após revisão estatutária, reconhece a legalidade da união civil homossexual de seus funcionários. A Radiobrás, foi a estatal pioneira nesse reconhecimento.
Evoluímos sim, mas somente sob alguns aspectos: a homofobia já é tangível de punição jurídica, é crime. O judiciário em alguns estados brasileiros tem dado veredicto favorável a ações isoladas impetradas por pares homossexuais. Estamos nos repensando e a construção é urgente e necessária em todos os aspectos e setores. Esse é apenas um deles. E não menos importante ou secundário. Talvez as gerações atuais não possam usufruir de todos os direitos que lhe são devidos. Foi assim em outras épocas com outras maiorias segregadas. Mas isso não justifica o nosso silêncio.

quarta-feira, janeiro 03, 2007



Cláudia,
Obrigado por ter feito contato, me alegra muito que compartilhes comigo a sintonia, por encontrar sentido e significado nos escritos astrológicos.

Fico feliz também que os postes em teu blog.

Que tudo seja para maior glória da vida!

Oscar Quiroga.
02 de janeiro de 2006

terça-feira, janeiro 02, 2007

O ANO É NOVO!

Oscar Quiroga


Data estelar: Sol e Mercúrio em conjunção, ambos em sextil com Urano. Lua será vazia das 8h07 às 13h15, horário de verão de Brasília.
Enquanto isso, aqui na nave Terra o ano fiscal é novo e bem-aventurados serão os seres humanos que aproveitarem a oportunidade que o cosmo dispõe com sua habitual graça. Chegou o inexorável tempo em que é propício abandonar as antigas roupagens sociais, políticas e culturais, deixando de lado os caminhos que teimosamente conduzem aos mesmos lugares de martírio e sofrimento. É tempo de ir além de tudo que inventamos, pois se continuarmos a recusar fazer essa travessia ficaremos todos aquém da realidade, muito frustrados e decepcionados por ter deixado escapar tão magnífica oportunidade de transfiguração, cientes de que uma nova só aparecerá em milênios, dado a evolução cósmica, que conta com a eternidade, não se importar com esses longos períodos.

02 de janeiro de 2007

sábado, dezembro 30, 2006

O INÍCIO DO ANO GALÁCTICO

Oscar Quiroga

Data estelar: Plutão, o anão invocado, se alinha com o centro da Galáxia. Lua continua crescendo em Touro.
Enquanto isso, aqui na nave Terra tudo vai muito além do que nossa humanidade alguma vez se atreveu a imaginar, pelo que se torna propício abdicar de tradições e padrões preestabelecidos, abrindo os braços para a chegada de uma dimensão muito maior de experiência. Esse mundo cultural nosso, conservador pela sua própria natureza, não está devidamente preparado para a transfiguração, e de sua resistência resulta o sofrimento. Por isso, não se deve confundir esse sofrimento com a natureza do momento atual, pois o alinhamento de Plutão com a Galáxia, que marca o início de ano galáctico, vem para libertar, e sofre tudo o que em nosso mundo teime em andar no sentido contrário, o que não é pouco, pois virtualmente tudo se submete ao confinamento.

Diário de Bordo
30 de dezembro de 2006.
http://www.astrologiareal.com.br/

sexta-feira, dezembro 29, 2006


imagem: arquivo google s/referência autor

Cláudia F.


está cansado o tempo da espera
o tempo ata-me

cumpro me desatar
desatinar
destemperar
no desvairado tempo afora

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Plutão, o anão invocado


Oscar Quiroga


Data estelar: Plutão inicia seu alinhamento com o centro da Galáxia, Lua é quarto crescente em Áries.
Enquanto isso, aqui na nave Terra nossa humanidade comprovará que, a despeito das denominações cozinhadas em obscuras reuniões acadêmicas, Plutão demonstrará que não apenas é um planeta, mas que, mesmo sendo chamado de anão, se manifesta como um baixinho invocado. Quanta vaidade se acumula no coração de nossa humanidade! E quanta dor e miséria se disseminam por causa dessa! 2007 é o ano galáctico de construção de nossa cultura, onde se decide a orientação por uma estrela maior, bem maior da que foi imaginada até agora. Nossa humanidade vê a sua folga diminuída dramaticamente, pelo que não é de se admirar o sentimento de desespero que circula silenciosamente por aí. É hora de se fazer o melhor com o que de pior estiver acontecendo. Menos queixas e mais espírito!

dezembro 2006