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quinta-feira, agosto 08, 2013
sábado, agosto 03, 2013
Maria
Cláudia Ferrari (03 agosto 2013)
Mando flores para Maria
Para Maria mando o bálsamo que guardei na gaveta
Segue também o sol que entra pela fresta
E outros pedidos
Vai em paz, Maria
Que tudo te abençoe, te acolha
E nos liberte
sexta-feira, agosto 02, 2013
A CASA
(Cláudia Efe, 01 de agosto de 2013)
Não por acaso
quis o destino a casa
deu endereço, ergueu paredes
abriu portas, iluminou de sol as janelas
foi luas e noites de chuva.
Não por acaso.
A casa escreve por dentro
Por isso a gente enfeita, perfuma
Derrama, brinda, faz festa
Dá lugar, canto e se espalha.
Depois recolhe, dobra, lava, enxuga
Só se parte o que é parte
não o que não é inteiro
Só se parte o que é parte
não o que não é inteiro
domingo, julho 07, 2013
Anotações (para o pequeno livro de mágicas)
(Cláudia Efe)
A vida serve para isso
Mudar um quadro de lugar
Olhar a janela
Ouvir o som das ruas que não vejo
A vida respira nas páginas que folheio
nos mares que a invenção navega
faz e desfaz
desenha e apaga
giz de cera
no meu caderno amarrotado
vou procurar a lua
e acender vagalumes
domingo, junho 30, 2013
Nau
Letra e música*: Cláudia Efe (* dia desses posto o áudio...)
Vaza pela noite a fotografia
vez por outra é assim
Vaza pelos olhos, me transborda
e quando vejo, é madrugada
(e os dias vão)
Quem em mim ousou ser nós?
Quem de mim?
Mar, palavra seca, sal
sem terra à vista ou miragem
Náufrago na ventania
dentro a sede
insiste em seus lugares
Quem ...
(Rio, 29 de junho 2013)
domingo, maio 26, 2013
Funeral Blues ( W.H. Auden / Tradução: Maria de Lourdes Guimarães)
Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.
Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os policiais de trânsito usem luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.
Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.
Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os policiais de trânsito usem luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.
Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.
Stop all the clocks, cut
off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.
April 1936
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.
April 1936
quarta-feira, maio 15, 2013
segunda-feira, maio 13, 2013
sexta-feira, maio 03, 2013
Enquanto espero
Cláudia Efe
Enquanto espero
o tempo passa
a lua cresce
muda inteira
enquanto espero
tudo é movimento
tudo expande
e contrai
a água desce da montanha
sol no horizonte ou vezes chuva
implacável o tempo o tempo todo muda
me diz do limite ao mesmo tempo o tempo me navega
eu infinito e tolo
sou suas noites e dias
sou sua
segunda-feira, abril 29, 2013
Clarice Lispector
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
sábado, abril 27, 2013
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
Dizeres
cláudia efe
ostente seus silêncios
luas minguantes
estrelas subtraídas
calor absurdo
ruídos estardalhaços
e outros medos
eu falo da outra noite
falo o que eu quiser da outra noite
da noite dentro da noite dentro da noite
da noite escondida
deliciosamente perdida em noite
da noite escandalosamente noite
da puta noite
da puta que pariu a noite!
da puta que pariu a noite!
eu posso dizer da noite que rasga o vento
de uma chuva absurda de raios que caiu sobre a noite
eu hoje posso ir para todos os seus lados
me por e sair do seu lugar sem ir a lugar algum
me por e sair do seu lugar sem ir a lugar algum
domingo, dezembro 30, 2012
PARA TODOS NÓS, UM FELIZ ANO NOVO!
TEOREMA DA INCOMPLETUDE
(Manoel de Barros)
A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
segunda-feira, dezembro 24, 2012
domingo, novembro 11, 2012
Dos poemas desnecessários
Cláudia Efe (2006)
Mando meus desmantelos
meu coração intranquilo
minhas faltas de data
minha pouca memória
e o melhor de mim
Mando o que me navega
e meus outros tráfegos
mando o que foi escrito com pressa
e outras urgências
mando o louco, o torto, o cético, o romântico
Mando o explícito e desvairado
mando a música, a mais bonita
mando a orquestra, a banda
uma voz rouca e outra ainda silenciosa
digo que você me atravessa
feito lança
e se aloja nos meus sentidos
sábado, novembro 10, 2012
segunda-feira, novembro 05, 2012
Lançamento, Poemas com destino Certo.
Poemas com
destino certo é o 12º livro da
escritora carioca Cristina da Costa Pereira, que já publicou também ensaios e
literatura infantojuvenil.
É o seu quarto livro de poesia e conta com prefácio de
Sérgio Bernardo e posfácio de Pedro da Costa Pereira.
A primeira parte da obra é dedicada ao bairro de Santa
Teresa, e contém um poema e um texto em prosa. A segunda parte compõe-se de poemas que se
referem à situação atual do mundo, numa abordagem espiritualista, revelando a
imisção do material e do espiritual.
“Comparado aos
três títulos de poesia anteriores, neste livro é que Cristina consegue seu
melhor desempenho em se tratando de concisão. Esse ‘dizer mais com menos’, meta
dos poetas contemporâneos, atinge o ápice em vários poemas. Penso que o leitor,
frequente de poesia ou não, encontrará nestas páginas matéria farta para
reflexão sobre seu tempo, seu mundo, seu país. E não só: sobre si mesmo”,
afirma o poeta e escritor Sérgio Bernardo.
“Uma palavra do poema ‘À palavra’, de Cristina, diz: ‘Há dentro de mim uma melodia/que clama: escrever para iluminar,/estado
de poesia/estado de vida.’ A melodia
é o ímpeto por escrever. Esse ímpeto clama por alguma coisa, e essa coisa,
escrever para iluminar. O estado de vida é ele mesmo luz”, afirma Pedro da
Costa Pereira.
O lançamento de Poemas
com destino certo será a 13 de novembro, terça-feira, a partir das 18:30h,
no Centro Cultural Municipal Laurinda Santos Lobo. Na ocasião, haverá
apresentação musical de André Mendes (voz e violão) e de Mio Vacite (violino).
O endereço do Centro Cultural Laurinda Santos Lobo é: Rua
Monte Alegre, 306 – Santa Teresa (telefone: 2215 06 18).
sábado, novembro 03, 2012
(Do pequeno livro)
Cláudia Efe
Arrancar o vazio
tomar-lhe as rédeas
Olho no olho da indiferença
Não temê-lo
mas recuar para entender-lhe a forma
Enxergá-lo de possíveis ângulos
até o invisível
Compreender a dor sem cura
da travessia
Seu lugar sem silêncio
Seu mar sem espera
sexta-feira, novembro 02, 2012
quinta-feira, setembro 27, 2012
quinta-feira, setembro 20, 2012
domingo, setembro 16, 2012
sábado, setembro 15, 2012
Feito pra acabar
Tom: B
Intro: G7+ E (3x)
F# (2x)
G7+
Quem me diz
E G7+
Da estrada que não cabe onde termina
E G7+
Da luz que cega quando te ilumina
E F#
Da pergunta que emudece o coração
G7+
Quantas são
E G7+
As dores e alegrias de uma vida
E G7+
Jogadas na explosão de tantas vidas
E F#
Vezes tudo que não cabe no querer
G7+
Vai saber
E G7+
Se olhando bem no rosto do impossível
E G7+
O véu, o vento e o alvo invisível
E F#
Se desvenda o que nos une ainda assim
E
A gente é feito pra acabar
F# E F#
Ah Aah Ah Aah Ah Aah
E
A gente é feito pra dizer
F#
Que sim
E
A gente pra caber
F#
No mar
E E E
E isso nunca vai ter fim
( G7+ E ) (3x)
( F# ) (2x)
G7+
Quem me diz
E G7+
Da estrada que não cabe onde termina
E G7+
Da luz que cega quando te ilumina
E F#
Da pergunta que emudece o coração
G7+
Quantas são
E G7+
As dores e alegrias de uma vida
E G7+
Jogadas na explosão de tantas vidas
E F#
Vezes tudo que não cabe no querer
G7+
Vai saber
E G7+
Se olhando bem no rosto do impossível
E G7+
O véu, o vento e o alvo invisível
E F#
Se desvenda o que nos une ainda assim
E
A gente é feito pra acabar
F# E F#
Ah Aah Ah Aah Ah Aah
E
A gente é feito pra dizer
F#
Que sim
E
A gente pra caber
F#
No mar
E E E
E isso nunca vai ter fim
quarta-feira, agosto 29, 2012
sábado, agosto 25, 2012
Por assim dizer
cláudia efe
A luz na janela
a taça de vinho
o pote de barro
o bolinho de arroz.
Aprendo que se faz oferendas para o silêncio da tarde
que é íntimo e com música própria
que ali, ainda posso imaginar, e ainda devo.
É assim,
perpetrado por tempo e espaço
lugar onde gritam liberdades roucas e desaforadas.
Fé inabalável de tristes e alegres e sem sentidos
sem verdades e sem lutos
porque tudo está em nós
e permanecerá
de um outro jeito talvez,
mas de algum modo.
agosto 2012, RJ
A luz na janela
a taça de vinho
o pote de barro
o bolinho de arroz.
Aprendo que se faz oferendas para o silêncio da tarde
que é íntimo e com música própria
que ali, ainda posso imaginar, e ainda devo.
É assim,
perpetrado por tempo e espaço
lugar onde gritam liberdades roucas e desaforadas.
Fé inabalável de tristes e alegres e sem sentidos
sem verdades e sem lutos
porque tudo está em nós
e permanecerá
de um outro jeito talvez,
mas de algum modo.
agosto 2012, RJ
quarta-feira, agosto 15, 2012
domingo, julho 01, 2012
quinta-feira, junho 07, 2012
sábado, maio 19, 2012
Maio (do Pequeno livro de mágicas)
Cláudia Efe
quando amanhece
o outono é gelado na janela
visitam a casa uns passarinhos
de peito amarelo e bico estridente.
Faço o sinal da cruz pra São Jorge
desarrumo a memória e bebo café quente
a quem interessa o que escrevo?
Servem pra isso também as palavras
entornar o sabor do vinho
no gosto da pele
o aroma, no vazio
escorregar pelas coisas
até transbordar os sentidos
pede-me o tempo para ficar quieto
só vejo por fora
o que carrego por dentro.
quando amanhece
o outono é gelado na janela
visitam a casa uns passarinhos
de peito amarelo e bico estridente.
Faço o sinal da cruz pra São Jorge
desarrumo a memória e bebo café quente
a quem interessa o que escrevo?
Servem pra isso também as palavras
entornar o sabor do vinho
no gosto da pele
o aroma, no vazio
escorregar pelas coisas
até transbordar os sentidos
pede-me o tempo para ficar quieto
só vejo por fora
o que carrego por dentro.
domingo, abril 22, 2012
quinta-feira, abril 12, 2012
Para quem gosta de uma boa prosa...
por Cristina da Costa Pereira
Dia 19 de abril, às 11 horas, você está convidado para participar de um bate-papo com Cristina da Costa Pereira, autora do livro Qualquer chão leva ao céu - a história do menino e do cigano (Escrita Fina Edições), no 14º Salão do Livro Infantojuvenil no Centro de Convenções Sul América (ao lado do prédio da Prefeitura do Rio de Janeiro, no bairro do Estácio).
Dia 19 de abril, às 11 horas, você está convidado para participar de um bate-papo com Cristina da Costa Pereira, autora do livro Qualquer chão leva ao céu - a história do menino e do cigano (Escrita Fina Edições), no 14º Salão do Livro Infantojuvenil no Centro de Convenções Sul América (ao lado do prédio da Prefeitura do Rio de Janeiro, no bairro do Estácio).
O livro narra o encontro de Jorge, um menino de rua, com o cigano Latsi, revelando que um garoto pode ter muito a ensinar a um adulto, e que um indivíduo de um grupo étnico aparentemente fechado, como o povo cigano, pode estar aberto a mostrar aspectos de sua cultura. A narrativa convida a uma reflexão sobre o estar no mundo e celebra a diversidade de culturas e costumes.
Em sentido horário, Cláudia Ferrari, Dirce e Cristina da Costa Pereira
segunda-feira, abril 02, 2012
dizeres
imagem: arquivo Google, sem referência autor.
cláudia efe
Noite de outono
lua sobre as coisas
estar quieto
no meio do silêncio
onde até o ainda é muito cedo
sobre o confuso.
O que escrevo é aéreo e sem asas
(ela agora não voa).
Está entre o susto e a estranheza
na fresta do que não se sabe, nem presume.
O que você perguntaria?
Pra quê?
Ah, também me pergunto. E, sem resposta.
Preciso da palavra hoje
da palavra agora
eu preciso do silêncio da palavra.
segunda-feira, março 05, 2012
liberdades
C. Ferrari em terras de PESSOA
O frio é decisivo
impera o vinho
e conjuga de queijos e azeites
a liberdade
O frio é decisivo
impera o vinho
e conjuga de queijos e azeites
a liberdade
terça-feira, dezembro 13, 2011
Bondinho 113
Cristina da Costa Pereira
Curvas, tilintares, cheiros e cores
mescla de sentidos
quase um transporte alado
revela sinuoso pelos trilhos
pernas, dorsos, bocas e casario antigo.
E que delícia de paquera
quando cruza com um outro bondinho!
Ah, lá vem ele
música pros ouvidos
ritmo pro coração
às vezes, solta fogo pelos fios.
Passeiam pelos meus olhos
o lirismo de Vicente Maiolino, a graça de Mavy no
restaurantes e botecos, um ectoplasma
transformado em Dinorah e o tremor quebradiço
de sua sanfona, a luz de Renan Cepeda
Convento das Carmelitas, Chazinho, poesia e Carnaval
Marcílio Barroco das Neves, a linda Violeta,
minha brilhante ex-aluna, um filho em cada quadril,
bancos de praças, cachorros vira-latas,
profusão de jasmineiros, trepadeiras transgressoras,
a Telma da Cassiano (lembrança de Jorge Rodrigues),
uma corte de damas da noite, a oficina do Getúlio,
a sutileza da Tizuko, a Sonia Abayomi,
Valter “Nijinski” Rodrigues, o glamour da Sonia Otero,
surdos e cores da Delfina, cantiga da Cláudia Ferrari,
aceno do Arnaudo (lembrança do Farah),
pandeiro do Fabinho, o umbigo enterrado da Tânia
no solo sagrado de Santa Teresa, as diáfanas
costuras da Rita, o bailado dos meninos no estribo,
o tai-chi da Ilma, os anjos da Jemile
(lembrança de Manuel Bandeira),
Paulo e Sérgio em sambalanços coletivos,
Dolores e sua sangria, a arte alquímica da Cristina Felício,
ponte Rio-Niterói, o relógio da Central, o violão da Regina.
A Lapa lá embaixo Tá na Rua
e a baía de Guanabara derramada.
Um gato passou correndo
na rua Joaquim Murtinho
talvez seja o da Martha Pires,
aquele que vive fugindo.
Viro o rosto pro outro lado
e vejo em xale a Ana Lúcia
entrando no Alto Lapa Santa
os orixás, em seguida.
Dou tchau pras Velhinhas de Santa
que vinham do bar do Serginho
pra Estação do Curvelo
ouvir o Panela di Barro
tocar o seu samba rasgado
e algumas canções brasileiras.
Na altura do Guimarães
chegam música do Marcô
cheiro de sonho da padaria
Rosa, Pessoa e Lorca,
na cola de Florbela Espanca
voando do Largo das Letras
pra boemia das ruas:
versos sobre os meios-fios.
O bonde segue pro Silvestre
onde a cidade fica inteira
aos pés de Santa Teresa.
Lá bebe-se água da fonte
e as matas dos caboclos
penetram em nossas retinas.
Na virada dos bancos
pegam o bonde Cris dos Prazeres
a militante Dionysa Brandão (lembrança de Laura e Otávio)
direto da Equitativa
e voejam o manto coral
e o pólen de alguma essência
de um cálido monge budista
meditando com Antonio e Heloísa.
Volta o bonde ao Guimarães
passando pela Caixa d’água
aparição de Nelson Xavier
lá no alto da sacada,
ares do Largo do França.
Um primo-irmão do bondinho
transita na Vila Suíça (uns chamam de
Vila Jardim Santa Cecília).
E o bonde segue seu caminho:
Castelo do Valentim
Teresa que virou Térèze
Cadê o antigo Correio?
Tinha até sino na porta!
E a Folha de Santa Teresa,
porta-voz dos moradores
e tributo à poesia?
Também não existe mais
aquele armazém da esquina.
E nessa ciranda onírica
me transporto a outro bonde
coleando pro Largo das Neves.
Logo, logo, a biblioteca
pelas janelas de vidro
onde os estudantes leem
Cecília, Lobato, Quintana
e histórias em quadrinhos.
Rouba-me o olhar em rosa e jardins
o Centro Cultural Laurinda:
arte, celebração, comunidade
encontro com os amigos.
Virando a Monte Alegre
o Luisão e a Cristina
saem do Gomez e fazem batuque
em todo terreiro que avistam.
Trabalhando que só ela
na mão um pano de prato
na outra um copo de vinho
mando um beijo pra Fatinha
cerveja, noite de lua e petiscos.
Mas nessa parada
o bonde também tem saudade
da ginga do Robertinho.
“Ô moço, cadê o meu traçado?”
Tal qual Teresa de Ávila
levita, levita, bondinho
perfil inclinado pra Oriente
do mais belo pôr de sol do Rio
onde namoro várias ruelas.
E lá vai um galinho garnisé
batendo asas de uma casa simples
a dona a correr-lhe atrás
alguns marrecos em fila.
Tem também o roseiral
na casa que foi escola um dia.
Já sei, a arara do Vovô não está mais lá
habita etéreas paragens
mas, de fato, ainda ouço
seu metálico trinado
que ouriçava meus filhinhos,
lancheiras arrastadas, joelhos encardidos
vindos do Colégio Tomás de Aquino
(lembrança da Djanira).
Chegou a igreja das Neves.
Acesa! É noite de quermesse!
Não adianta!
Quando viajo no bonde de Santa Teresa
não vejo balas perdidas
nem ouço o tiroteio dos morros
não sei de ganho aos turistas
pelos pivetes ariscos
que fogem pela Portinha.
Sequer o roubo de um carro
naquela rua ali, ó Cristina!
Nunca ouvi falar do menino
que perdeu o pé direito
quando caiu do estribo
e o bonde passou por cima
seus livros de escola caídos.
E há pouco a professora morta
numa batida com o ônibus
e um táxi fugitivo,
uma história de freio sinistra.
Às vezes é uma ferida aberta, a vida.
Nada de assaltos-relâmpago
a deslumbrantes mansões
em plena luz do dia.
Pelo meu bondinho não passam:
crimes escabrosos, histórias de estupros,
acertos de conta, queimas de arquivo
e outras drogas.
Isso deixo pra Polícia
e pro Caderno de Notícias.
É outra a minha matéria,
ela é feita de fios de sonhos.
Mas afinal, vizinhos,
o que é um poeta sem seus sonhos?
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